terça-feira, 5 de julho de 2011

POLÍTICA E JARDINAGEM

De todas as vocações, a política é a mais nobre. Vocação, do latim vocare, quer dizer chamado. Vocação é um chamado interior de amor: chamado de amor por um ‘fazer’. No lugar desse ‘fazer’ o vocacionado quer ‘fazer amor’ com o mundo. Psicologia de amante: faria, mesmo que não ganhasse nada.
‘Política’ vem de polis, cidade. A cidade era, para os gregos, um espaço seguro, ordenado e manso, onde os homens podiam se dedicar à busca da felicidade. O político seria aquele que cuidaria desse espaço. A vocação política, assim, estaria a serviço da felicidade dos moradores da cidade.
Talvez por terem sido nômades no deserto, os hebreus não sonhavam com cidades: sonhavam com jardins. Quem mora no deserto sonha com oases. Deus não criou uma cidade. Ele criou um jardim. Se perguntássemos a um profeta hebreu ‘o que é política?’, ele nos responderia, ‘a arte da jardinagem aplicada às coisas públicas’.
O político por vocação é um apaixonado pelo grande jardim para todos. Seu amor é tão grande que ele abre mão do pequeno jardim que ele poderia plantar para si mesmo. De que vale um pequeno jardim se à sua volta está o deserto? É preciso que o deserto inteiro se transforme em jardim.
Amo a minha vocação, que é escrever. Literatura é uma vocação bela e fraca. O escritor tem amor mas não tem poder. Mas o político tem. Um político por vocação é um poeta forte: ele tem o poder de transformar poemas sobre jardins em jardins de verdade. A vocação política é transformar sonhos em realidade. É uma vocação tão feliz que Platão sugeriu que os políticos não precisam possuir nada: bastar-lhes-ia o grande jardim para todos. Seria indigno que o jardineiro tivesse um espaço privilegiado, melhor e diferente do espaço ocupado por todos. Conheci e conheço muitos políticos por vocação. Sua vida foi e continua a ser um motivo de esperança.
Vocação é diferente de profissão. Na vocação a pessoa encontra a felicidade na própria ação. Na profissão o prazer se encontra não na ação. O prazer está no ganho que dela se deriva. O homem movido pela vocação é um amante. Faz amor com a amada pela alegria de fazer amor. O profissional não ama a mulher. Ele ama o dinheiro que recebe dela. É um gigolô.
Todas as vocações podem ser transformadas em profissões O jardineiro por vocação ama o jardim de todos. O jardineiro por profissão usa o jardim de todos para construir seu jardim privado, ainda que, para que isso aconteça, ao seu redor aumente o deserto e o sofrimento.
Assim é a política. São muitos os políticos profissionais. Posso, então, enunciar minha segunda tese: de todas as profissões, a profissão política é a mais vil. O que explica o desencanto total do povo, em relação à política. Guimarães Rosa, perguntado por Günter Lorenz se ele se considerava político, respondeu: ‘Eu jamais poderia ser político com toda essa charlatanice da realidade... Ao contrário dos ‘legítimos’ políticos, acredito no homem e lhe desejo um futuro. O político pensa apenas em minutos. Sou escritor e penso em eternidade. Eu penso na ressurreição do homem.’ Quem pensa em minutos não tem paciência para plantar árvores. Uma árvore leva muitos anos para crescer. É mais lucrativo cortá-las.
Nosso futuro depende dessa luta entre políticos por vocação e políticos por profissão. O triste é que muitos que sentem o chamado da política não têm coragem de atendê-lo, por medo da vergonha de serem confundidos com gigolôs e de terem de conviver com gigolôs.
Escrevo para vocês, jovens, para seduzi-los à vocação política. Talvez haja jardineiros adormecidos dentro de vocês. A escuta da vocação é difícil, porque ela é perturbada pela gritaria das escolhas esperadas, normais, medicina, engenharia, computação, direito, ciência. Todas elas, legítimas, se forem vocação. Mas todas elas afunilantes: vão colocá-los num pequeno canto do jardim, muito distante do lugar onde o destino do jardim é decidido. Não seria muito mais fascinante participar dos destinos do jardim?
Acabamos de celebrar os 500 anos do descobrimento do Brasil. Os descobridores, ao chegar, não encontraram um jardim. Encontraram uma selva. Selva não é jardim. Selvas são cruéis e insensíveis, indiferentes ao sofrimento e à morte. Uma selva é uma parte da natureza ainda não tocada pela mão do homem. Aquela selva poderia ter sido transformada num jardim. Não foi. Os que sobre ela agiram não eram jardineiros. Eram lenhadores e madeireiros. E foi assim que a selva, que poderia ter se tornado jardim para a felicidade de todos, foi sendo transformada em desertos salpicados de luxuriantes jardins privados onde uns poucos encontram vida e prazer.

Há descobrimentos de origens. Mais belos são os descobrimentos de destinos. Talvez, então, se os políticos por vocação se apossarem do jardim, poderemos começar a traçar um novo destino. Então, ao invés de desertos e jardins privados, teremos um grande jardim para todos, obra de homens que tiveram o amor e a paciência de plantar árvores à cuja sombra nunca se assentariam. 
Há descobrimentos de origens. Mais belos são os descobrimentos de destinos. Talvez, então, se os políticos por vocação se apossarem do jardim, poderemos começar a traçar um novo destino. Então, ao invés de desertos e jardins privados, teremos um grande jardim para todos, obra de homens que tiveram o amor e a paciência de plantar árvores à cuja sombra nunca se assentariam. (Folha de S. Paulo, Tendências e Debates, 19/05/2000.)

Rubens Alves

quarta-feira, 29 de junho de 2011

A FLOR DA HONESTIDADE

Conta-se que por volta do ano 250 a.C, na China antiga, um príncipe da região norte do país, estava às vésperas de ser coroado imperador, mas, de acordo com a lei, ele deveria se casar.
Sabendo disso, ele resolveu fazer uma "disputa" entre as moças da corte ou quem quer que se achasse digna de sua proposta.

No dia seguinte, o príncipe anunciou que receberia, numa celebração especial, todas as pretendentes e lançaria um desafio.

Uma velha senhora, serva do palácio há muitos anos, ouvindo os comentários sobre os preparativos, sentiu uma leve tristeza, pois sabia que sua jovem filha nutria um sentimento de profundo amor pelo príncipe. 
Ao chegar em casa e relatar o fato à jovem, espantou-se ao saber que ela pretendia ir à celebração, e indagou incrédula:
- Minha filha, o que você fará lá? Estarão presentes todas as mais belas e ricas moças da corte. Tire esta idéia insensata da cabeça, eu sei que você deve estar sofrendo, mas não torne o sofrimento uma loucura.
E a filha respondeu:
 - Não, querida mãe, não estou sofrendo e muito menos louca, eu sei que jamais poderei ser a escolhida, mas é minha oportunidade de ficar pelo menos alguns momentos perto do príncipe, isto já me torna feliz.
À noite, a jovem chegou ao palácio. Lá estavam, de fato, todas as mais belas moças, com as mais belas roupas, com as mais belas jóias e com as mais determinadas intenções. Então, finalmente, o príncipe anunciou o desafio: Darei a cada uma de vocês, uma semente.
Aquela que, dentro de seis meses, me trouxer a mais bela flor, será escolhida minha esposa e futura imperatriz da China. A proposta do príncipe não fugiu às profundas tradições daquele povo, que valorizava muito a especialidade de "cultivar" algo, sejam costumes, amizades, relacionamentos etc... 
O tempo passou e a doce jovem, como não tinha muita habilidade nas artes da jardinagem, cuidava com muita paciência e ternura a sua semente, pois sabia que se a beleza da flor surgisse na mesma extensão de seu amor, ela não precisava se preocupar com o resultado. Passaram-se três meses e nada surgiu. A jovem tudo tentara, usara de todos os métodos que conhecia, mas nada havia nascido. 
Dia após dia ela percebia cada vez mais longe o seu sonho, mas cada vez mais profundo o seu amor.... Por fim, os seis meses haviam passado e nada havia brotado. Consciente do seu esforço e dedicação a moça comunicou a sua mãe que, independente das circunstâncias retornaria ao palácio, na data e hora combinadas, pois não pretendia nada além de mais alguns momentos na companhia do príncipe. 
Na hora marcada estava lá, com seu vaso vazio, bem como todas as outras pretendentes, cada uma com uma flor mais bela do que a outra, das mais variadas formas e cores. 
Ela estava admirada, nunca havia presenciado tão bela cena.   Finalmente chega o momento esperado e o príncipe observa cada uma das pretendentes com muito cuidado e atenção. Após passar por todas, uma a uma, ele anuncia o resultado e indica a bela jovem como sua futura esposa.
As pessoas presentes tiveram as mais inesperadas reações. Ninguém compreendeu porque ele havia escolhido justamente aquela que nada havia cultivado. 
Então, calmamente o príncipe esclareceu:
- Esta foi a única que cultivou a flor que a tornou digna de se tornar uma imperatriz. A flor da honestidade, pois todas as sementes que entreguei eram estéreis.
A honestidade é como uma flor tecida em fios de luz, que ilumina quem a cultiva e espalha claridade ao redor.

Base em texto de autor desconhecido

sábado, 25 de junho de 2011

Mande um Anjo!

...acho que a jardinagem é a melhor escola da política. Cidadania é isso: quando todos se sentem jardineiros, cuidadores do espaço da cidade. Na jardinagem o poder fica bonito porque ele se dedica a fazer um mundo melhor.
Meu pai morreu pobre. Não deixou herança. Por isso eu e meus irmãos nunca brigamos. Não havia uma herança a ser disputada. Existindo uma herança os irmãos se tornam inimigos. A se acreditar no que dizem os jornais, sua partida está criando problemas: uma briga sobre a terrível herança que você deixou. Se, de onde você está, você leu a estória sobre “Os ratos, o gato e o queijo“, você entendeu. Esta estória, eu a escrevi faz muitos anos. Mas a sua verdade é permanente. Os ratos eram irmãos enquanto não tinham o queijo. Bastou ter o queijo para que os ratos virassem gatos...
Sua herança terrível: o poder. O poder é a lâmpada mágica de Aladim que, uma vez esfregada, um gênio todo poderoso sai de dentro dela para realizar aquilo que o seu dono determina. Com a sua morte a lâmpada ficou sem dono. E surge, então, a inevitável pergunta: Quem vai ficar com a lâmpada? Quem vai poder dar ordens ao gênio?
A sociologia é uma ciência cruel. Ela mostra que, em todas as instituições, sem exceção, existe uma briga pela posse da lâmpada. Não importa que sejam cooperativas de plantadores de rosas, sindicatos de prostitutas, ordens religiosas, instituições médicas, times de futebol, asilos de velhinhos... Tão diferentes umas das outras, não é? Mas, no fundo, lá no fundo, há uma briga pelo poder.
Essa briga fica mais clara em dois tipos de instituições: as empresas e os partidos políticos. Nas empresas o nome da lâmpada é lucro, independentemente daquilo que elas produzem. Uma empresa pode produzir rosas ou armas: independentemente do que produzem, elas precisam de lucro. O dinheiro é a vida das empresas.
Nos partidos políticos o nome da lâmpada é poder. O objetivo primeiro de um partido é a tomada do poder. Aquilo a que se dá o nome de processo democrático é a luta para se apossar da lâmpada mágica.
Mas é claro que nem as empresas e nem os partidos falam abertamente sobre isso. As empresas, quando se dirigem aos seus clientes, só falam sobre coisas que dão beleza, coisas que dão saúde, coisas que poupam o trabalho, coisas de amor... E os partidos políticos, ao se dirigirem aos eleitores, vão como a Banda, cantando coisas de amor: educação, saúde, segurança, proteção aos velhinhos, emprego para todo mundo, justiça... Todos tocando a mesma música.
O que vou dizer aprendi de Santo Agostinho, em suas meditações sobre a política. É assim: tudo na vida se faz com uma mistura de poder e amor. Para fazer um jardim eu tenho de ter um sonho de amor, o jardim que amo; e poder para plantá-lo. Para fazer uma casa eu tenho de ter amor – a casa dos meus sonhos – e poder para construí-la. O poder é bom quando está a serviço do amor. Mas, de vez em quando, acontece um revertério: o poder se esquece do amor e fica solto. Solto, sem objeto, o poder se apaixona por ele mesmo. Quando isso acontece é o pandemônio, é a luta, é a possessão demoníaca. O poder se esquece do amor, os políticos se esquecem do povo, os jardineiros se esquecem dos jardins...
Aí, acontece o inverso da Banda. Ao invés de cantar coisas de amor, os partidos começam a cantar coisas de poder. E o povo não é bobo. Percebe. Ouvindo coisas de amor o povo marcha alegremente na avenida. Ouvindo os ruídos da briga pelo poder o povo fica triste, perde a esperança e debanda...


Trecho da Crônica de Rubens Alves

segunda-feira, 20 de junho de 2011

A ÁRVORE TRISTE

"Não podemos continuar a observar a natureza como se ela fosse, simplesmente, uma bela paisagem; como se estivéssemos a contemplar uma obra de arte; como se fôssemos meros espectadores deste espetáculo. Somos parte dela e devemos viver sentindo na alma a essência da nossa própria natureza."



A árvore triste

Certa vez, existiu uma árvore que vivia sempre triste, porque de seus galhos jamais havia brotado uma flor.
Só folhas. Uma abelhinha aproximou-se dela cantando:
- Zumm...zumm...zumm...Que árvore feia! Só tem folhas! E as flores, onde estão?

Sua companheira observou:

- Aqui não fico, pois preciso levar um pouco de mel para minha colméia. Vocês sabem o que é uma colméia?
É a casinha das abelhas.      
É ali que elas moram e fabricam o tão preciso mel.
As abelhinhas são trabalhadeiras, retiram o néctar das flores, que é um docinho que todas elas possuem.
Depois levam esse néctar para a colméia e ali o depositam. Hoje, amanhã, depois...E vão formando o mel tão saboroso.
 Como é gostoso um favo de mel!
Bem, voltemos à nossa história.
A abelhinha continuou:
- Como esta árvore não tem flores, vou-me embora.   Chegou em seguida, uma linda borboleta e, voando em torno da árvore, comentou:
- Como é triste esta árvore! Não tem nenhuma flor! As flores é que alegram a vida... Vocês sabiam que as borboletas põem ovinhos nas folhas das plantas, e desses ovinhos nascem uma porção de lagartas que um dia se transformam em lindas borboletas?
Como é maravilhosa a natureza!
Vieram também alguns passarinhos, mas não gostaram de fazer seus ninhos na árvore sem flores, por isso não ficaram lá.     A noite já vinha chegando, quando um menininho se aproximou da árvore.
- Estou tão cansado que vou me deitar debaixo dessa árvore, disse o pequeno.
Deitou e dormiu.
A árvore, no seu silêncio, pensou: "Como ele está cansado...Deve estar sentindo frio! Vou derrubar minhas folhas sobre ele, para lhe servirem de agasalho, assim ele não sentirá tanto frio."
Quando amanheceu, o menino acordou e disse admirado:
- Que vejo? Quantas folhas! Dormi tão bem...Como essa árvore é boa e generosa! Agasalhou-me com suas folhas!
O menininho, muito agradecido, disse a árvore:
- Você terá sua recompensa: vou transformá-la na árvore mais bela e alegre deste lugar.
E continuou:
- Árvore, de hoje em diante, de seus galhos brotarão flores multicores, para que todos se sintam felizes!

Voltaram as abelhinhas, a borboleta e os passarinhos, e todos disseram:

- Como está bonita, perfumada e alegre! Você é a árvore mais linda que existe! Viremos sempre visitá-la!
E todos cantaram junto com as flores...



terça-feira, 14 de junho de 2011

HISTÓRIA DE UM BEIJA-FLOR


... Era uma vez uma floresta num lugar longínquo, onde o Homem ainda não tinha chegado. Nessa floresta viviam muitos animais de diferentes espécies, tamanhos, cores e feitios. Era ainda o tempo em que os animais falavam.
Certo dia, houve um incêndio, um grande incêndio, como nunca antes havia sido visto. Perante a tragédia, o pânico instalou-se. Os animais fugiam num alvoroço, cada um procurando, da melhor forma possível, fugir às chamas, ao fumo sufocante e ao intenso calor que se fazia sentir, só pensando em colocar-se a salvo o quanto antes.Mas... naquele cenário caótico, de desespero e medo colectivos, um pequeno animal teve um comportamento diferente. Na sua fragilidade, na sua singela figura, um beija-flor voava até ao lago e, com o seu pequenino e aguçado bico, recolhia, uma a uma, lenta mas persistentemente , gotinhas de água atrás de gotinhas de água, que ia depois deixando cair sobre o incêndio que lavrava cada vez mais descontrolado.Um outro animal, observando intrigado o comportamento do pequeno beija-flor, interrompeu a sua fuga e perguntou:- Beija-flor, mas tu estás louco? Porque te arriscas assim? Tu achas verdadeiramente que vais conseguir apagar o incêndio dessa forma?O Beija-flor respondeu então:- Não... claro que não, eu sei que o meu pequeno esforço não será suficiente para apagar este incêndio tão grande mas... eu estou apenas...
a cumprir a minha parte!

sexta-feira, 10 de junho de 2011

ORQUÍDEA



Não existe flor ais perfeita do que a Orquídea, ela extrapola sua função ornamental quando , em paralelo com suas flores, as raízes e folhas, completam-lhe a formosura em uma pintura com delineação cubista geometrizando os seus contornos, ora, apontando para o infinito, ora [para os rés-do-chão. Suas flores variam  em diversas nunças, tamanhos, perfumes e ... beleza! Embora pertencendo a uma mesma família elas modificam os seus genes diversificando as dádivas recebidas da mãe natureza. em um mostruário cativante e ...deslumbrante! Admirar uma flor de orquídea é como olhar embevecido de mãe dirigindo a um filho que esteve ausente por algum tempo, ela é tão primorosa que espaça suas produções de pétalas em períodos razoáveis, evitando, dessa forma, ser considerada trivial e oferecida (como se isso lhe fosse possível em virtude de ser portadora de uma performance ímpar)As maiorias das suas flores apresentam cinco pétalas mais destacáveis tendo ao centro uma parte cônica com uma “fauce” igualmente em forma afunilada. A orquídea, por fazer parte de uma família numerosa e cheia de diversidade, existe em várias partes do planeta, tendo por habitat, naturais velhas florestas onde medram em madeiras secas a ponto de, por muito tempo, ter sido confundida com trepadeira.Segundo consta, orquídea não tem espinhos por ser resistente a eles e, como que, se oferecendo às carícias de seus admiradores, sem lesioná-los.É uma planta muito forte, vencendo todas as intempéries desde que tenha um tempo razoável de aclimatação, mesmo assim, perdura com vida até por dias jogados em pisos de pedras, madeiras, cimento e análogos, parecendo que em seu interior, em simbiose, desfilam a vida e a sobrevivência orquestradas com a esperança de um porvir num xaxim, tronco podre de madeira ou... Um orquidário!Sou formalmente contra viveiros para pássaros e animais, contudo, sou radicalmente à favor da necessidade de um orquidário em razão dos vegetais, dentre eles a “rainha orquídea”, não se moverem por conta própria, dessa forma, ao serem enclausuradas num viveiro, não estarão sendo escravizadas e, sim... Cuidados!
Recebendo carinho, alimento, água e reconhecimento de quem muito gosta delas, além de proteção contra predadores naturais (ou não), lenhadores despreparados e eventuais incêndios que, na certa, toda vida destruiriam.Não sei quem declamou a rosa como rainha das flores, embora não o conteste veementemente, devo lembrar que, quem o fez, também deveria ter enumerado princesas para as devidas sucessões, lembrando, igualmente, que a rosa é resultante de cuidados especiais em jardins feitos com esmero, ao passo que as orquídeas são guerreiras oriundas das florestas, grutas, serras e matagais, alimentando-se de madeira podre e sedimentos lenhosos.No meu modesto entender, a orquídea deveria ser conduzida ao trono de rainha das flores, pela sua difícil sobrevivência na natureza e sua beleza sem par, passando a rosa a ser uma florida princesa.Não sei quanto tempo vive uma orquídea, entretanto, sem sombra de duvida, tenho a convicção de que ela aumenta o meu tempo de vida quando a admiro e manuseio no modesto orquidário de minha casa, que considero como a nossa sala de visitas pela presença harmoniosa e bela das flores, folhas e raízes de tão linda irmã vegetal!


Sebastião Antonio Baracho



domingo, 5 de junho de 2011

A FLOR E O EXEMPLO

 Na aridez das glebas agrestes floresce a sinuosa flor, paramentada com requinte pela mãe natureza que, embora seja pobre naquele ermo, dá para a filha o que pode de si mesmo.

A flor, não tendo como explorar o caule seco e quebradiço amparador de suas raízes retorcidas e esquálidas sedenta de líquidos, ameniza suas formas, como a pedir clemência ao meio circunvizinho e ao "astro-rei", este último, orgulhoso e indiferente pela secura daquele deserto, assim tornado pela sua passagem diária
Mesmo sem ser atendida, a flor continua seu círculo de vida embelezando como pode a áspera vizinhança, satisfazendo-se com as migalhas de orvalho e as inconstantes e cada vez mais esporádicas chuvas.
Sua paupérrima existência ensinou-lhe como sobreviver com o mínimo necessário e, em razão disso, ela nada desperdiça, desde o adubo das raízes e folhas mortas e secas até as acumuladas e fofas fezes de insetos que peregrinam à sua volta.
A cada amanhecer, a flor prepara-se para a próxima canícula fechando o que pode de suas pétalas, e ativando a sudação para diminuir a secura dos raios solares, pacientemente, apronta-se para enfrentar os dissabores do radiante dia, não reclama não se afasta não se entrega!
Com a proximidade da tarde, ela está quase desfalecendo, sua sudação é pastosa e ressequida desenhando arabescos nas folhas de pontas e pecíolos quebradiços, mas... Está feliz! Foi mais um dia vitorioso e um embate firme, desafiante em sua humildade, esbelta e mais bela, além disso, vencera o sol, ele?...Desaparecera no ocaso passando por ela devassador e sugador, mas, apenas passou não a venceu!
Sabe que teve um átimo de ajuda para aquele combate, fornecido pela brisa filtrada dos vapores quentes, pelas ocasionais sombras dos alcantis e pelas raras nuvens passageiras e, com isso, ficou... Agradecida! Tem conhecimento de que o sol fora embora despeitado por não vencê-la tão frágil e mimosa, tão desprotegida em relação as pedreiras e areais domados e sugados por Ele, no entretanto, mesmo assim, fora a vencedora!
Agora... A noite aproxima-se célere e aconchegante, é momento de reabilitar-se em suas reservas de forças para a próxima luta, contudo, também, é hora de meditar...
Na calada da noite e no amainar dos vapores caloríficos, fica "matutando" a razão de sua vida ainda em flor...vida ?, Sim... É isto!
Enquanto se apega a vida Ela, dificilmente, sai do corpo (qualquer corpo) mesmo o de uma simples flor do deserto agreste e desaguado:
Vida é viver e não apenas passagem! É passaporte ao Jardineiro dos Tempos, viajor que conduz quando quer fazer metamorfose, mudas, enxertos ou, simplesmente... Ceifar! Não importando as intempéries, os agentes, locais... Nada importa! Só a vontade do Arquiteto e Criador, se Ele quiser, coloca a flor no infinito junto aos astros e, o sol, naqueles centímetros quadrados da planta em referência.
A cada ser animal ou vegetal fora dada uma vida, existência essa nas condições do presente doado e, ao recebedor, só caberá viver! Seja em que condição for, mas, viver para dar valor a vida até o dia da ceifa, mudança ou outra forma a critério do Jardineiro Celeste.
A flor do campo e do agreste é, em sua origem, a mesma do palácio e vitrines que, por sua vez, é a mesma dos páramos, pântanos e esgotos, não importando a reação que causem aos demais, mesmo que esta reação passe do embevecimento ao asco, da admiração ao desprezo, o que importa é a existência da vida que cada uma tenha para viver e não as emanações e motivações que possam desprender!
A flor citadina sofre o mesmo que a flor paupérrima e não mimada dos desertos e locais agrestes, só que, os impulsos negativos e as ações dirigidas a Elas, são diferentes em extensão e qualidade, todavia, a sobrevivência é a mesma desde que o caminho seja para... Viver!
Quando se tem tudo não se dá valor a nada!
Quando não temos nada, damos valor a tudo e aproveitamos o que podemos na ocasião carente!
A flor da árida, pedrejante e areenta gleba, aproveita o que pode apenas para viver!
Como seria feliz o homem se, ao invés, de procurar as estrelas para conquistá-las andasse à procura das plantas para observá-las e imitá-las! Procurando lutar pela vida e não pela vida fácil, fazendo com que, a cada dia passado, ficasse acrescido de valores e se preparando para o dia seguinte com humildade, tais e qual, a flor do campo, apenas juntando o necessário para o combate seguinte, sempre à espera do Jardineiro e das mudanças que Ele achasse de bom alvitre, isto sem nunca espezinhar o vizinho ou tomar-lhe o lugar e os bens, exemplo esse que, nunca, receberia da recatada flor.


Sebastião Antônio Baracho



























sexta-feira, 3 de junho de 2011

A ÁRVORE DO TEMPO

                                                                         Foto de Alcionéia Neves

           O que é, o que é
Uma árvore bem frondosa
Doze galhos, simplesmente
Cada galho , trinta frutas
Com vinte e quadro sementes?








Enigmas e adivinhas convidam à decifração: “trouxe a chave?
Encaramos o desafio: trata-se de uma árvore bem frondosa
Que tem doze galhos, que têm trinta frutas, que têm
vinte e quadro sementes: cada verso introduz uma nova informação
que se encaixa na anterior.
Quantos galhos tem a árvore frondosa? Quantas frutas tem  cada galho?
Quantas sementes tem cada fruta? A resposta a cada uma dessas questões não revela o enigma. Se for familiarizando com charadas, o leitor sabe que nem sempre uma árvore é uma árvore, um galho é um galho, uma fruta é uma fruta, uma semente é uma semente…Traiçoeira, a árvore frondosa agita seus galhos, intriga-nos com as possibilidades ocultas nas sementes.

O que é, o que é?

Apegar-se apenas às palavras, às vezes é deixar escapar o sentido que se insinua nas ramagens.Mas que não está ali.
Que árvore é essa? Símbolo da vida, ao mesmo tempo que se alonga num percurso vertical rumo ao céu, mergulha suas raízes na terra. Cíclica, despe-se das folhas, abre-se em flores, que escondem frutos, que protegem sementes, que ocultam coisas futuras.
“Decifra-me ou te devoro.”
Qual a resposta? Vamos a ela: os anos que se desdobram em meses, que se aceleram em dias, que escorrem em horas.  A ÁRVORE DO TEMPO.
                                                                       Foto de Alcionéia  Neves

E assim, contemplemos outra árvore:
Deus fez crescer do solo todas espécie de árvores formosas de ver e boas de comer, e a árvore da vida no meio do jardim , e a árvore do conhecimento do bem e do mal. (…)

E Deus deu ao homem este mandamento: “Podes comer de todas as árvores do jardim. Mas, da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, porque no dia em que dela comeres terás de morrer”.



Ah, essas árvores e esses frutos, o desejo de conhecer, tão caro ao ser humano…


Maria José Nóbrega




quarta-feira, 1 de junho de 2011

POLÍTICA E JARDINAGEM



 De todas as vocações, a política é a mais nobre. Vocação, do latim vocare, quer dizer chamado. Vocação é um chamado interior de amor: chamado de amor por um ‘fazer’. No lugar desse ‘fazer’ o vocacionado quer ‘fazer amor’ com o mundo. Psicologia de amante: faria, mesmo que não ganhasse nada.

‘Política’ vem de polis, cidade. A cidade era, para os gregos, um espaço seguro, ordenado e manso, onde os homens podiam se dedicar à busca da felicidade. O político seria aquele que cuidaria desse espaço. A vocação política, assim, estaria a serviço da felicidade dos moradores da cidade.
Talvez por terem sido nômades no deserto, os hebreus não sonhavam com cidades: sonhavam com jardins. Quem mora no deserto sonha com oases. Deus não criou uma cidade. Ele criou um jardim. Se perguntássemos a um profeta hebreu ‘o que é política?’, ele nos responderia, ‘a arte da jardinagem aplicada às coisas públicas’.
O político por vocação é um apaixonado pelo grande jardim para todos. Seu amor é tão grande que ele abre mão do pequeno jardim que ele poderia plantar para si mesmo. De que vale um pequeno jardim se à sua volta está o deserto? É preciso que o deserto inteiro se transforme em jardim.
Amo a minha vocação, que é escrever. Literatura é uma vocação bela e fraca. O escritor tem amor mas não tem poder. Mas o político tem. Um político por vocação é um poeta forte: ele tem o poder de transformar poemas sobre jardins em jardins de verdade. A vocação política é transformar sonhos em realidade. É uma vocação tão feliz que Platão sugeriu que os políticos não precisam possuir nada: bastar-lhes-ia o grande jardim para todos. Seria indigno que o jardineiro tivesse um espaço privilegiado, melhor e diferente do espaço ocupado por todos. Conheci e conheço muitos políticos por vocação. Sua vida foi e continua a ser um motivo de esperança.
Vocação é diferente de profissão. Na vocação a pessoa encontra a felicidade na própria ação. Na profissão o prazer se encontra não na ação. O prazer está no ganho que dela se deriva. O homem movido pela vocação é um amante. Faz amor com a amada pela alegria de fazer amor. O profissional não ama a mulher. Ele ama o dinheiro que recebe dela. É um gigolô.
Todas as vocações podem ser transformadas em profissões O jardineiro por vocação ama o jardim de todos. O jardineiro por profissão usa o jardim de todos para construir seu jardim privado, ainda que, para que isso aconteça, ao seu redor aumente o deserto e o sofrimento.
Assim é a política. São muitos os políticos profissionais. Posso, então, enunciar minha segunda tese: de todas as profissões, a profissão política é a mais vil. O que explica o desencanto total do povo, em relação à política. Guimarães Rosa, perguntado por Günter Lorenz se ele se considerava político, respondeu: ‘Eu jamais poderia ser político com toda essa charlatanice da realidade... Ao contrário dos ‘legítimos’ políticos, acredito no homem e lhe desejo um futuro. O político pensa apenas em minutos. Sou escritor e penso em eternidade. Eu penso na ressurreição do homem.’ Quem pensa em minutos não tem paciência para plantar árvores. Uma árvore leva muitos anos para crescer. É mais lucrativo cortá-las.
Nosso futuro depende dessa luta entre políticos por vocação e políticos por profissão. O triste é que muitos que sentem o chamado da política não têm coragem de atendê-lo, por medo da vergonha de serem confundidos com gigolôs e de terem de conviver com gigolôs.
Escrevo para vocês, jovens, para seduzi-los à vocação política. Talvez haja jardineiros adormecidos dentro de vocês. A escuta da vocação é difícil, porque ela é perturbada pela gritaria das escolhas esperadas, normais, medicina, engenharia, computação, direito, ciência. Todas elas, legítimas, se forem vocação. Mas todas elas afunilantes: vão colocá-los num pequeno canto do jardim, muito distante do lugar onde o destino do jardim é decidido. Não seria muito mais fascinante participar dos destinos do jardim?
Acabamos de celebrar os 500 anos do descobrimento do Brasil. Os descobridores, ao chegar, não encontraram um jardim. Encontraram uma selva. Selva não é jardim. Selvas são cruéis e insensíveis, indiferentes ao sofrimento e à morte. Uma selva é uma parte da natureza ainda não tocada pela mão do homem. Aquela selva poderia ter sido transformada num jardim. Não foi. Os que sobre ela agiram não eram jardineiros. Eram lenhadores e madeireiros. E foi assim que a selva, que poderia ter se tornado jardim para a felicidade de todos, foi sendo transformada em desertos salpicados de luxuriantes jardins privados onde uns poucos encontram vida e prazer.
 
Há descobrimentos de origens. Mais belos são os descobrimentos de destinos. Talvez, então, se os políticos por vocação se apossarem do jardim, poderemos começar a traçar um novo destino. Então, ao invés de desertos e jardins privados, teremos um grande jardim para todos, obra de homens que tiveram o amor e a paciência de plantar árvores à cuja sombra nunca se assentariam. 
Há descobrimentos de origens. Mais belos são os descobrimentos de destinos. Talvez, então, se os políticos por vocação se apossarem do jardim, poderemos começar a traçar um novo destino. Então, ao invés de desertos e jardins privados, teremos um grande jardim para todos, obra de homens que tiveram o amor e a paciência de plantar árvores à cuja sombra nunca se assentariam. (Folha de S. Paulo, Tendências e Debates, 19/05/2000.)

Rubens Alves